Durante boa parte da era John Schneider (e Pete Carroll), os Seahawks costumavam seguir alguns padrões relativamente fáceis de identificar nos Drafts. Em alguns anos, a franquia priorizava atletas extremamente físicos e explosivos. Em outros, apostava em jogadores experientes, com dezenas de partidas como titulares e liderança comprovada no vestiário, seniors principalmente.
O Draft de 2026, porém, parece ter seguido um caminho diferente.
Ao analisar a classe montada por Seattle, fica difícil encontrar um arquétipo dominante. Em vez de escolher apenas jogadores prontos para contribuir imediatamente ou apenas atletas com enorme potencial de desenvolvimento, os Seahawks misturaram os dois mundos.
E isso provavelmente foi intencional.
A primeira escolha da equipe ilustra perfeitamente essa mudança. Running back Jadarian Price chegou à NFL carregando um perfil de alto teto atlético, mas sem o histórico de produção contínua que normalmente acompanha uma escolha de primeira rodada. Lesões e circunstâncias ao longo da carreira universitária impediram que ele acumulasse uma grande amostragem como titular, obrigando os avaliadores a projetarem aquilo que ele ainda pode se tornar.
Em compensação, o safety Bud Clark representa quase o extremo oposto.
Após uma longa trajetória em TCU, Clark chegou ao Draft com 6 anos de experiência, liderança e produção consistente. É o tipo de jogador que normalmente oferece um piso mais seguro para uma equipe que busca contribuir imediatamente.
A tendência continuou ao longo de toda a classe.
Enquanto Beau Stephens chega com enorme quantidade de snaps acumulados na linha ofensiva universitária, nomes como Emmanuel Henderson Jr., Julian Neal e Michael Dansby foram selecionados muito mais pela combinação de ferramentas físicas, crescimento recente e potencial de evolução do que por uma longa carreira consolidada.
O mesmo vale para Andre Fuller e Deven Eastern.
Eastern chega à NFL após anos atuando em uma das conferências mais competitivas do futebol universitário, trazendo experiência e durabilidade. Fuller, por outro lado, representa uma aposta em um jogador que demorou mais tempo para se desenvolver, mas que mostrou uma evolução significativa nos momentos finais da carreira universitária.
O que isso revela sobre Mike Macdonald?
Talvez a resposta esteja menos ligada à experiência e mais relacionada a outro fator.
Desde que assumiu o comando da equipe, Mike Macdonald e John Schneider têm repetido constantemente algumas palavras ao descrever os jogadores que procuram: competitividade, mentalidade, caráter e disposição para disputar espaço.
A própria cobertura da ESPN sobre os bastidores do Draft apontou que competitividade foi um dos elementos centrais na construção da classe. Seattle queria atletas que chegassem ao elenco acreditando que poderiam conquistar vagas imediatamente, independentemente da posição ocupada no elenco.
Isso ajuda a explicar por que jogadores tão diferentes acabaram agrupados na mesma classe.
Os Seahawks não estavam necessariamente procurando apenas veteranos experientes ou apenas projetos atléticos. O objetivo parece ter sido encontrar competidores.
Bud Clark e Beau Stephens oferecem isso através da experiência acumulada.
Jadarian Price, Julian Neal e Emmanuel Henderson oferecem isso através do potencial ainda não totalmente explorado.
São caminhos diferentes para chegar ao mesmo resultado.
O Draft pode ser reflexo de um elenco campeão
Existe ainda outro contexto importante.
Diferentemente de muitos times que entram no Draft tentando preencher vários buracos no elenco, Seattle chegou ao processo poucos meses após conquistar o Super Bowl LX.
Isso muda completamente a dinâmica.
Equipes em reconstrução costumam priorizar jogadores mais prontos, buscando reduzir riscos. Já elencos consolidados possuem liberdade para apostar em perfis variados, porque não dependem imediatamente de todos os novatos.
Os Seahawks podiam se dar ao luxo de selecionar um prospecto mais cru em uma posição e um jogador extremamente experiente em outra.
A necessidade deixou de ser encontrar titulares desesperadamente.
O foco passou a ser fortalecer a competição interna e aumentar o teto do elenco a médio prazo.
A ausência de um padrão talvez seja o padrão
Durante anos, analistas tentaram identificar a “cara” de um jogador dos Seahawks.
O cornerback longo da era Pete Carroll.
O atleta explosivo medido por RAS.
O veterano com enorme volume de jogos universitários.
O Draft de 2026 sugere que essa busca talvez esteja ficando mais difícil.
Ao invés de priorizar um único perfil, Seattle parece ter montado uma classe baseada em diferentes trajetórias, diferentes níveis de experiência e diferentes estágios de desenvolvimento.
O elo em comum não está necessariamente na idade, no número de jogos disputados ou nos testes atléticos.
Está na convicção de que cada um desses jogadores ainda possui espaço para crescer e, principalmente, disposição para competir.
Para uma franquia que acabou de conquistar um Super Bowl e não precisava desesperadamente preencher lacunas no elenco, essa pode ser uma abordagem mais inteligente do que seguir qualquer fórmula rígida.
Afinal, quando um time acredita ter encontrado sua cultura, talvez o mais importante não seja procurar um tipo específico de jogador.
Talvez seja simplesmente procurar jogadores que se encaixem nela.
