A campanha 3–14 do Las Vegas Raiders em 2025 não pode ser explicada apenas por limitações de elenco ou azar. O que se viu ao longo da temporada foi uma franquia operando sem identidade clara, com decisões desalinhadas entre diretoria, comissão técnica e vestiário. O desempenho em campo foi apenas o reflexo final de uma estrutura instável, construída às pressas e sustentada mais por nomes de peso do que por um plano coerente.
Pete Carroll e a perda de controle do próprio método
A contratação de Pete Carroll foi tratada como um movimento de segurança. Um técnico experiente, vencedor, com histórico de construção cultural forte em Seattle. O problema é que, em Las Vegas, Carroll tentou replicar estruturas sem o mesmo contexto — e tomou decisões que minaram sua própria autoridade desde o início.
A mais simbólica delas foi a escolha de seu filho, Brennan Carroll, como treinador de linha ofensiva. Em uma franquia já sensível a disputas internas e desconfiança no vestiário, a decisão foi vista como nepotismo, independentemente da competência técnica envolvida. Jogadores e fontes internas relataram desconforto com a ideia de que um dos setores mais críticos do time estivesse sob comando de alguém protegido por laços familiares diretos com o head coach.
O impacto foi visível em campo. A linha ofensiva dos Raiders foi uma das piores da NFL em 2025, tanto em proteção de passe quanto em bloqueios no jogo corrido. Falta de padronização de técnicas, erros de comunicação em twists e stunts defensivos e dificuldades em ajustes in-game se tornaram recorrentes. Mais grave ainda foi a sensação de que não havia consequências claras para desempenhos ruins, algo que enfraqueceu a cultura de responsabilidade que sempre foi marca registrada de Carroll.
Um ataque sem identidade e sem liderança clara
O colapso ofensivo não foi apenas estatístico, mas conceitual. O ataque nunca decidiu quem queria ser. Em alguns jogos, a tentativa era controlar o relógio com jogo terrestre; em outros, forçar Geno Smith a operar um ataque vertical atrás de uma linha incapaz de sustentar o pocket. A consequência foi um quarterback constantemente pressionado, forçado a antecipar leituras, assumir riscos desnecessários e acumular interceptações.
Relatos de bastidores apontaram para jogadores se reunindo sem a presença da comissão técnica para tentar alinhar conceitos e ajustes semanais. Isso é um sinal claro de quebra de confiança no staff. Quando atletas sentem que precisam “se virar” para entender o plano de jogo, o problema já ultrapassou o playbook e entrou no campo da liderança.
Tom Brady e a influência que gerou ruído
A presença de Tom Brady como acionista minoritário e consultor informal foi vendida como um diferencial competitivo. Na prática, porém, sua influência criou uma zona cinzenta perigosa. Brady participou ativamente de decisões-chave, incluindo a contratação de Carroll, a montagem do staff e a aposta em Geno Smith como quarterback titular.
O problema não foi Brady opinar, mas a ausência de uma hierarquia clara sobre quem realmente dava a palavra final. Em alguns momentos, a sensação era de que Carroll respondia tanto a Mark Davis quanto às expectativas de Brady, criando um ambiente onde o head coach nunca teve autonomia total — nem responsabilidade plena. Esse tipo de estrutura dilui autoridade e dificulta ajustes firmes quando as coisas começam a dar errado.
Mark Davis e a repetição de um padrão conhecido
No topo da cadeia, Mark Davis novamente apostou em nomes fortes para tentar acelerar um processo que exigia paciência. Ao permitir múltiplos centros de influência e ao não estabelecer limites claros entre propriedade, consultoria e comissão técnica, Davis reforçou um padrão recorrente dos Raiders na última década: decisões reativas, mudanças abruptas e projetos interrompidos antes de amadurecerem.
A demissão de Carroll após apenas uma temporada, embora justificável pelo desempenho, também evidencia a falta de convicção no plano inicial. O erro não foi apenas o resultado, mas a forma como o projeto foi concebido.
Um artigo da ESPN detalha o fracasso de Pete Carroll nos Raiders
