O Brasil de Ancelotti é um filme que o torcedor dos Seahawks já assistiu

Normalmente, o Rapinas do Mar fala de futebol americano. Mas, acompanhar uma Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos, com Seattle recebendo partidas do torneio e a eliminação do Brasil acontecendo justamente no MetLife Stadium — palco da conquista do primeiro Super Bowl da história dos Seahawks — acabou despertando uma comparação inevitável.

Não sobre resultados. Nem para dizer que Carlo Ancelotti fracassou. Muito menos para colocar a Seleção em crise depois de um trabalho que mal começou.

O paralelo surgiu por causa de uma sensação.

Uma sensação que o torcedor dos Seahawks conhece muito bem desde os últimos anos da era Pete Carroll.

Pete Carroll é o maior treinador da história dos Seahawks. Campeão do Super Bowl XLVIII, responsável pelo período mais vitorioso da franquia e por montar a Legion of Boom, uma das maiores defesas da história da NFL. Seu legado jamais será apagado.

Carlo Ancelotti chega à Seleção Brasileira com um peso semelhante no futebol. É um dos treinadores mais vencedores de todos os tempos e ninguém conquista tantos títulos por acaso.

Mas currículo não ganha jogo.

E foi justamente isso que trouxe lembranças de Seattle.

Durante a Copa, era difícil entender exatamente o que o Brasil queria ser. Não era uma equipe dominante com a bola. Também não pressionava os adversários de forma consistente. Não era claramente reativa, nem ofensiva o suficiente para sufocar qualquer rival.

Existiam bons momentos, claro. Mas eles pareciam muito mais episódios isolados do que consequência de uma ideia coletiva.

Era difícil responder uma pergunta simples: qual é a identidade dessa Seleção?

Essa era exatamente uma das principais críticas aos Seahawks no fim da passagem de Pete Carroll.

Seattle queria correr com a bola, mas já não impunha mais seu jogo terrestre como antes. Queria controlar as partidas, mas frequentemente precisava correr atrás do placar. A defesa deixava de ser dominante e o ataque também não conseguia compensar.

O resultado era um time que fazia um pouco de tudo, mas já não fazia nada em nível de elite.

Talvez o maior símbolo desse desgaste tenha sido justamente a defesa.

Pete Carroll ficou conhecido por construir uma das maiores unidades defensivas que a NFL já viu. Mas, nos seus últimos anos em Seattle, essa mesma defesa passou a sofrer atuações que pareciam impensáveis. Josh Jacobs colecionou jogos dominando os Seahawks pelo chão. Em outra ocasião, um ataque comandado por Mason Rudolph movimentou a bola com muito mais facilidade do que qualquer torcedor imaginaria alguns anos antes.

O problema não era apenas perder.

Era perder justamente naquilo que sempre foi a marca registrada do treinador. No caso do Brasil, perder sem jamais ter mostrado o nosso “futebol arte” que parece estar no passado.

Com o Brasil, outro aspecto chamou atenção: a inconsistência nas decisões.

Não porque um treinador não possa mudar de ideia. Adaptar-se faz parte do futebol.

O problema é quando essas mudanças parecem não seguir uma lógica clara.

Igor Thiago foi convocado, ganhou oportunidade logo na estreia e parecia fazer parte dos planos. Depois disso, praticamente desapareceu das opções, inclusive em partidas nas quais sua presença física poderia oferecer uma alternativa diferente.

Luiz Henrique parecia estar à frente de Rayan na disputa por minutos. Depois do primeiro jogo, praticamente sumiu.

Endrick entrou com a justificativa de atacar a profundidade e explorar espaços nas costas da defesa. Pouco depois, aparecia aberto pela ponta, exercendo justamente uma função que limita a principal característica que justificou sua entrada.

Não havia uma linha clara.

Algumas convicções eram abandonadas rapidamente. Outras permaneciam intactas, mesmo quando os jogos sugeriam mudanças.

Essa sensação também remete aos últimos anos de Pete Carroll.

Algumas ideias pareciam inegociáveis, mesmo quando deixavam de funcionar. Outras mudavam de uma semana para outra sem continuidade suficiente para produzir resultados.

Outro paralelo apareceu nas entrevistas.

Na reta final de sua passagem pelos Seahawks, Pete Carroll frequentemente fazia leituras das partidas que não pareciam refletir o que havia acontecido em campo. Suas explicações muitas vezes deixavam o torcedor com a impressão de que treinador e torcida haviam assistido a jogos diferentes.

Com Ancelotti, algumas justificativas também geraram esse sentimento.

Um exemplo foi a escolha de Bruno Guimarães como cobrador de pênaltis. O treinador justificou a decisão dizendo que o volante era quem tinha o melhor aproveitamento recente. O argumento, porém, pareceu frágil, já que a amostragem de cobranças na carreira é bastante pequena para que essa estatística, por si só, sustente a decisão.

Isso não significa que Bruno não pudesse ser o cobrador.

Mas a explicação pareceu mais uma tentativa de justificar uma escolha do que uma resposta realmente convincente.

E esse tipo de desconexão entre discurso e percepção do jogo também marcou os últimos anos de Pete Carroll em Seattle.

Nada disso significa que Carlo Ancelotti esteja ultrapassado.

Muito menos que seu trabalho esteja condenado ao fracasso.

Pete Carroll também não deixou Seattle porque esqueceu como treinar futebol americano. Ele saiu porque, depois de 14 temporadas, o projeto dava sinais claros de desgaste. As ideias já não produziam os mesmos resultados, a identidade havia se perdido e a franquia precisava de novos caminhos.

Com Ancelotti, é cedo demais para falar em desgaste. Seria injusto fazer esse tipo de avaliação depois de poucos jogos.

Mas alguns sinais apresentados nesta Copa despertaram uma sensação familiar para quem acompanhou o fim da era Pete Carroll.

A sensação de um time sem identidade definida.

De decisões difíceis de entender.

E de um treinador extremamente vencedor que, naquele momento específico, parecia ainda procurar as respostas certas.

Tomara que a comparação pare por aqui.

Porque Seattle precisou encerrar um ciclo para voltar a enxergar um novo horizonte.

O torcedor brasileiro certamente espera que a Seleção encontre esse caminho muito antes disso.

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