Uma das maiores lendas da história do Seattle Seahawks está ajudando a enfrentar um dos maiores problemas que o futebol americano deixou para seus ex-jogadores.
Matt Hasselbeck, quarterback que defendeu Seattle entre 2001 e 2010 e foi três vezes selecionado para o Pro Bowl, participou recentemente de uma série de exames na Boston University como parte de uma pesquisa que tenta encontrar uma maneira de diagnosticar a CTE enquanto o paciente ainda está vivo.
E esse detalhe é extremamente importante.
O que é CTE?
CTE é a sigla em inglês para Chronic Traumatic Encephalopathy, ou Encefalopatia Traumática Crônica.
É uma doença degenerativa do cérebro associada a impactos repetitivos na cabeça. Ela é especialmente relevante no futebol americano porque um jogador pode sofrer milhares de impactos ao longo da carreira, mesmo sem necessariamente ter uma concussão diagnosticada em cada um deles.
O grande problema é que, atualmente, a CTE só pode ser confirmada definitivamente depois da morte, através da análise do cérebro.
É justamente isso que os pesquisadores querem mudar.
Hasselbeck está ajudando sem estar doente
Aos 50 anos, Hasselbeck afirma estar saudável. Mesmo assim, passou dois dias na Boston University realizando uma bateria de exames.
Ele fez testes cognitivos, coleta de sangue, ressonância magnética e um exame chamado PET scan, que utiliza um marcador para analisar determinadas características e atividades do cérebro.
A ideia é descobrir se existe algum biomarcador — uma característica mensurável no sangue ou nas imagens do cérebro, por exemplo — que permita identificar a CTE antes que seja tarde demais.
Para isso, os pesquisadores estão comparando ex-jogadores de futebol americano com pessoas diagnosticadas com Alzheimer que não tiveram histórico de esportes de contato ou impactos repetitivos na cabeça.
Embora CTE e Alzheimer possam apresentar sintomas semelhantes, os pesquisadores sabem que são doenças diferentes. Por isso, métodos utilizados para diagnosticar Alzheimer não necessariamente funcionam para CTE.
Por que Hasselbeck decidiu participar?
Essa talvez seja a parte mais importante da história.
Hasselbeck sofreu concussões ao longo da vida. Ele conta que teve três antes mesmo de começar a faculdade — uma jogando futebol americano, outra no basquete e outra enquanto brincava de patins no gelo — além de outras durante sua carreira.
Mas ele também reconhece que, como quarterback, não sofreu tantos impactos quanto muitos de seus companheiros.
E foi justamente pensando nesses jogadores que ele decidiu participar.
“Eles precisam de caras como eu.”
A ideia de Hasselbeck é contribuir para uma pesquisa que pode beneficiar principalmente os jogadores que passaram anos na linha de frente, bloqueando adversários, disputando tackles ou atuando nos times especiais.
Em outras palavras: os caras que protegiam Hasselbeck também estão sendo protegidos por ele agora.
O futebol americano mudou
Hasselbeck também falou sobre como a percepção das concussões mudou durante sua carreira.
Ele chegou à NFL em 1998, quando existia uma cultura muito forte de simplesmente levantar depois de uma pancada e dizer que estava tudo bem.
Segundo ele, isso mudou bastante até o final de sua carreira, em 2015.
Hoje, jogadores, equipes e médicos têm muito mais consciência sobre os riscos dos impactos na cabeça.
Mas ainda existe um enorme espaço para evolução.
A pesquisa da Boston University, financiada pelo National Institutes of Health com US$ 15 milhões, busca justamente produzir o conhecimento necessário para que a CTE possa eventualmente ser identificada durante a vida do paciente.
E Hasselbeck já havia se comprometido anteriormente com a causa: em 2017, ele anunciou que doaria seu cérebro para pesquisas sobre CTE após sua morte.
Agora, ele está dando um passo além.
Não está apenas ajudando os pesquisadores depois de morrer.
Está ajudando enquanto está vivo.
E para uma doença que atualmente só pode ser confirmada após a morte, essa diferença pode ser enorme.
Para Hasselbeck, que passou 17 anos jogando futebol americano profissional e fez história em Seattle, talvez essa seja uma das contribuições mais importantes de sua carreira.
Não dentro de campo, mas ajudando a tornar o esporte que ele ama mais seguro para quem ainda está jogando — e para aqueles que já deixaram o jogo para trás.
