Mike Macdonald chegou ao Seattle Seahawks em 2024 cercado por grandes expectativas. Aos 36 anos, ele assumia pela primeira vez o comando de uma equipe da NFL depois de construir sua reputação como coordenador defensivo do Baltimore Ravens. Dois anos depois, Macdonald já levou Seattle ao título do Super Bowl. Mas, olhando para o início dessa trajetória, o próprio treinador admite que estava longe de ser a versão de líder que gostaria de ter sido.
Em uma entrevista concedida a Graham Bensinger e divulgada nesta semana, Macdonald falou abertamente sobre suas dificuldades durante os primeiros meses como treinador dos Seahawks. Entre as principais autocríticas, ele reconheceu que não foi um grande líder em sua primeira temporada, citando problemas de consciência, confiança e comunicação.
“Eu não fui um grande líder no meu primeiro ano. É difícil dizer isso, mas eu falhei de várias maneiras — em consciência, confiança e no meu estilo de comunicação. Simplesmente não fui a melhor versão de mim mesmo.”
A declaração chama atenção principalmente pelo momento em que acontece. Macdonald não está falando sobre sua primeira temporada depois de uma demissão ou de um fracasso prolongado. Ele faz essa avaliação depois de conquistar o Super Bowl em apenas seu segundo ano como head coach.
De coordenador a líder de toda a equipe
Uma das dificuldades enfrentadas por Macdonald foi a mudança de perspectiva provocada pela promoção de coordenador defensivo para head coach.
Antes de chegar a Seattle, ele passou praticamente toda a carreira profissional trabalhando dentro da estrutura dos Ravens, com John Harbaugh. Macdonald explicou que, durante muito tempo, enxergava seu trabalho como o de construir a defesa dentro da identidade que Harbaugh queria para Baltimore.
Em Seattle, porém, não havia mais um treinador acima dele para definir essa identidade.
Macdonald contou que chegou a pensar que deveria continuar sendo “o cara do John” mesmo depois de deixar Baltimore. A mudança para Seattle o obrigou a responder uma pergunta muito mais pessoal: quem era Mike Macdonald como treinador?
Essa busca por uma identidade própria acabou sendo uma parte importante de seu processo de crescimento.
“Eu era o cara do John que agora não tinha mais o John”, explicou Macdonald. “Então é como se fosse: para onde eu vou? Eu sou Mike Macdonald? Mike Macdonald é bom o suficiente?”
A questão não era apenas tática. Como head coach, Macdonald precisava estabelecer uma cultura, construir relacionamentos com jogadores, comunicar suas expectativas e, principalmente, fazer com que uma equipe inteira acreditasse naquilo que ele estava tentando construir.
Primeiro ano terminou com 10 vitórias
Apesar das dificuldades que Macdonald descreve agora, sua primeira temporada em Seattle não foi um desastre dentro de campo.
Os Seahawks começaram 2024 vencendo os três primeiros jogos, sofreram uma sequência complicada no meio da temporada e terminaram com seis vitórias nas últimas oito partidas. Seattle fechou o ano com campanha de 10-7, ficando fora dos playoffs.
A evolução defensiva ao longo daquele segundo semestre foi especialmente importante para o projeto de Macdonald. Ainda assim, olhando para trás, o treinador entende que os resultados não contam toda a história daquele primeiro ano.
Segundo ele, parte do problema estava justamente na maneira como lidava com a responsabilidade de ser o treinador principal.
Macdonald explicou que colocou uma pressão enorme sobre si mesmo. Ele queria encontrar rapidamente as respostas certas, mas ainda estava descobrindo o que significava ser o responsável por todas as decisões de uma franquia.
Essa necessidade de estar sempre certo acabou dificultando seu próprio processo.
“Eu queria estar certo o tempo todo e não sabia o que era certo”, contou.
A mudança começou durante a temporada
Macdonald afirma que começou a sentir uma transformação ainda durante 2024. Em algum momento da segunda metade daquela temporada, ele procurou o general manager John Schneider para dizer que finalmente estava se sentindo como ele mesmo novamente.
Foi também nesse período que a rotina e a maneira de trabalhar começaram a mudar.
Macdonald passou a dar mais atenção à própria rotina, ao relacionamento com os jogadores e à maneira como se comunicava. O treinador percebeu que precisava construir pequenas vitórias diariamente em vez de tentar resolver tudo imediatamente.
Essa mudança também coincidiu com a evolução dos Seahawks em campo.
Depois de começar a temporada com dificuldades, Seattle venceu seis dos últimos oito jogos e terminou 2024 com uma defesa que apresentava sinais mais claros da identidade que Macdonald queria implementar.
Mas o verdadeiro resultado desse processo só apareceria um ano depois.
A diferença entre 2024 e 2025
Em 2025, os Seahawks deram o salto que Macdonald esperava.
Seattle terminou a temporada regular com 14-3, conquistou a primeira posição da NFC e posteriormente venceu o Super Bowl LX contra o New England Patriots.
A transformação foi rápida, mas não aconteceu simplesmente porque Macdonald encontrou uma nova estratégia defensiva. O treinador também teve um ano para entender melhor como queria liderar o grupo.
A autocrítica feita agora ajuda a colocar essa evolução em perspectiva.
Macdonald não atribui suas dificuldades do primeiro ano a uma única decisão ou a um único problema. Ele fala especificamente sobre consciência, confiança e comunicação — justamente algumas das características que se tornam fundamentais quando um coordenador passa a comandar uma franquia inteira.
A diferença entre o treinador que chegou a Seattle em 2024 e o que levantou o Lombardi Trophy em 2025, portanto, não está apenas no resultado final. O próprio Macdonald reconhece que precisou aprender a ser o líder dos Seahawks antes de conseguir transformar completamente a equipe à sua imagem.
E talvez essa seja uma das partes mais interessantes de sua trajetória: o treinador que agora comanda uma equipe campeã admite que, quando chegou a Seattle, ainda estava tentando descobrir exatamente que tipo de líder queria ser.
