Raio-X: Dia das Bruxas

Já faz um tempo. Naquela segunda-feira, por volta das 22h, confesso que ainda tinha um pouco de esperança. Definitivamente, não me considero iludido por acreditar. Afinal, querendo ou não, o time tinha dado uma boa resposta contra o Kansas City Chiefs. O ataque foi consideravelmente mais sólido e sóbrio, e a defesa voltou ao nível espetacular que nos levou a vencer o Super Bowl. No meio da semana, tivemos a troca por Quenton Nelson, um jogador de nível All-Pro que chegava para ajudar um dos setores mais deficitários desta temporada.

Mas bastou o primeiro drive do Chicago Bears para sentir uma pontada no coração e ter uma terrível previsão do que estaria por vir. Como em todo filme de sofrimento, ou melhor, de terror, o destino ainda nos proporcionou um breve momento de esperança. DeMarcus Lawrence, em um raro momento de brilhantismo nesta temporada, forçou e recuperou um fumble na end zone. Na sequência, a partida teve um touchdown de Cooper Kupp, que deixou a diferença em apenas três pontos.

Mas um ataque comandado por um coordenador ofensivo inexperiente e que já podemos classificar como ruim, Brian Fleury, somado a uma defesa cansada e leniente, acabou rapidamente com qualquer mínima chance de vitória. Agora, na temporada, temos quatro vitórias e quatro derrotas, e fica cada vez mais difícil competir pelo título da divisão. Mais do que isso, está ficando cada vez mais complicado ter alguma perspectiva de voltarmos a brigar pelo Super Bowl.

Aproveitando os dias recentes de Halloween, vamos contar as narrativas do desastre que foi a partida contra o Chicago Bears por meio de duas famosas histórias de terror.

Sem gastar mais nenhuma palavra, está na hora de começar.

O Iluminado

O Iluminado é originalmente um livro escrito pelo famoso Stephen King, publicado em 1977. Em 1980, ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick, que se tornou um dos maiores clássicos do gênero de terror e suspense da história. O enredo acompanha o personagem principal, Jack Torrance, um escritor que aceita trabalhar como zelador durante o inverno em um hotel isolado nas montanhas do Colorado. Ele se muda para o local com sua esposa e seu filho Danny, que possui habilidades sobrenaturais e consegue enxergar acontecimentos do passado e do futuro. Com o passar dos dias, o isolamento, as forças sobrenaturais presentes no hotel e a deterioração de sua sanidade fazem o zelador perder gradualmente o controle, transformando a estadia da família em um verdadeiro pesadelo.

Na obra cinematográfica, como dito acima, Jack vai perdendo o controle gradualmente por conta de seus problemas pessoais e das forças malignas do hotel. Estranhamente, tive uma sensação parecida com Sam Darnold.

Na partida contra o Kansas City Chiefs, apesar dos pesares, Darnold fez um bom jogo. Foi uma atuação controlada, com o mínimo de erros, que nos permitiu chegar a uma vitória relativamente tranquila. Já contra os Bears, a sensação foi muito mais amarga. A cada campanha do ataque, nós, torcedores que acompanhamos os Seahawks no dia a dia, conseguíamos perceber que aquele quarterback que um dia colocou uma final de conferência nas costas e nos liderou rumo ao nosso segundo título de Super Bowl estava se degradando lentamente, pouco a pouco.

Na primeira campanha, ainda havia esperança. Na segunda, também. A partir da terceira, as coisas começaram a ficar estranhas. Da quarta em diante, tornou-se apenas dor e desesperança. Nem os momentos de brilhantismo de Jaxon Smith-Njigba conseguiram atenuar o péssimo desempenho do camisa 14.

Nada é mais simbólico para mim do que a jogada da interceptação que selou o destino da partida. Perdendo por dez pontos, faltando seis minutos para o fim, ele até consegue escapar do pocket e lançar a bola, que acaba desviada. Mas, em vez de acompanhar o desfecho da jogada, simplesmente dá as costas e não percebe a bola caindo no colo do defensor adversário.

Tal qual Jack, foi uma degradação gradual de desempenho e esperança que realmente nos faz questionar se não é o próprio Lumen Field que está mal-assombrado.

A Hora do Pesadelo

A Hora do Pesadelo (1984), dirigido por Wes Craven, acompanha a história de um grupo de adolescentes que começa a ser perseguido durante o sono por Freddy Krueger, um dos assassinos mais famosos da história do cinema, que possui uma aparência completamente desfigurada. Ele aparece nos pesadelos dos jovens e tem a capacidade de matar suas vítimas enquanto elas dormem. A grande questão é que, depois de morrerem nos sonhos pelas mãos de Krueger, os jovens também morrem na vida real. À medida que a história avança e os ataques se intensificam, os personagens tentam descobrir a origem de Freddy e encontrar uma maneira de enfrentá-lo, enquanto lutam para não dormir e, consequentemente, não sonhar.

Passados alguns dias da partida, o sentimento que tenho neste momento é parecido com o dos jovens de A Hora do Pesadelo. Não que, se eu tirar um belo cochilo, um assassino vá me perseguir e que haverá uma poça de sangue ao lado da minha cama quando eu acordar, mas, neste momento, sinto que estou proibido de sonhar.

Nesta mesma altura da temporada passada, estávamos a todo vapor: ataque e defesa voando, vitórias em sequência e um time pronto para brigar contra absolutamente qualquer equipe da National Football League e conquistar o Super Bowl.

Neste ano, a situação é completamente diferente. E aqui, infelizmente, precisamos aceitar que, depois de enfrentar um time em alta na liga como o Chicago Bears, fica muito fácil perceber que as equipes estão em prateleiras diferentes neste momento. Eles são um time competitivo, e o Seattle Seahawks não.

Os desfalques, os erros repetidos e, principalmente, o estado anímico da equipe durante a partida e nas entrevistas pós-jogo deixam tudo muito claro para nós, torcedores: está proibido sonhar. Vai que Freddy Krueger aparece durante o seu sono.

Deixe um comentário